| Miséria |
| João de Deus | |
|
Era já noite cerrada, Diz o filho: "Oh minha mãe, Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega, que todo o dia Tinha levado a anadar, A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar. Mas saltam dois cães de gado, Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. Tornam os pobres à estrada, E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe, Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" - Se os cães deixarem... (diz ella, A triste n'um riso amargo), Com effeito a sentinela: - "Quem vem lá?... Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho, Vendo a sua esperança vã, Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!... |
|