| Lira XV |
| Tomas Antônio Gonzaga | |
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Eu, Marília, não fui nenhum Vaqueiro, fui honrado Pastor da tua Aldeia; vestia finas lãs e tinha sempre a minha choça do preciso cheia. Tiraram-me o casal e o manso gado, nem tenho, a que me encoste, um só cajado. Para ter que te dar, é que eu queria de mor rebanho ainda ser o dono; prezava o teu semblante, os teus cabelos ainda muito mais que um grande Trono. Agora que te oferte já não vejo, além de um puro amor, de um são desejo. (...) Propunha-me dormir no teu regaço as quentes horas da comprida sesta, escrever teus louvores nos olmeiros, toucar-te de papoilas na floresta. Julgou o justo Céu que não convinha que a tanto grau subisse a glória minha. Ah! minha bela, se a fortuna volta, se o bem, que já perdi, alcanço e provo, por essas brancas mãos, por essas faces te juro renascer um homem novo, romper a nuvem que os meus olhos cerra, amar no céu a Jove e a ti na terra! Fiadas comprarei as ovelhinhas, que pagarei dos poucos do meu ganho; e dentro em pouco tempo nos veremos senhores outra vez de um bom rebanho. Para o contágio lhe não dar, sobeja que as afague Marília, ou só que as veja. Se não tivermos lãs e peles finas, podem mui bem cobrir as carnes nossas as peles dos cordeiros mal curtidas, e os panos feitos com as lãs mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido por mãos de amor, por minhas mãos cosido. Nós iremos pescar na quente sesta com canas e com cestos os peixinhos; nós iremos caçar nas manhãs frias com a vara enviscada os passarinhos. Para nos divertir faremos quanto reputa o varão sábio, honesto e santo. Nas noites de serão nos sentaremos c'os filhos, se os tivermos, à fogueira: entre as falsas histórias, que contares, lhes contarás a minha, verdadeira: Pasmados te ouvirão; eu, entretanto, ainda o rosto banharei de pranto. Quando passarmos juntos pela rua, nos mostrarão c'o dedo os mais Pastores, dizendo uns para os outros: — Olha os nossos exemplos da desgraça e sãos amores. Contentes viveremos desta sorte, até que chegue a um dos dois a morte. |
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