| Lira IV |
| Tomas Antônio Gonzaga | |
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Já, já me vai, Marília, branquejando loiro cabelo, que circula a testa; este mesmo, que alveja, vai caindo, e pouco já me resta. As faces vão perdendo as vivas cores, e vão-se sobre os ossos enrugando, vai fugindo a viveza dos meus olhos; tudo se vai mudando. Se quero levantar-me, as costas vergam; as forças dos meus membros já se gastam; vou a dar pela casa uns curtos passos, pesam-me os pés e arrastam. Se algum dia me vires desta sorte, vê que assim me não pôs a mão dos anos: os trabalhos, Marília, os sentimentos fazem os mesmos danos. Mal te vir, me dará em poucos dias a minha mocidade o doce gosto; verás brunir-se a pele, o corpo encher-se, voltar a cor ao rosto. No calmoso Verão as plantas secam; na Primavera, que aos mortais encanta, apenas cai do Céu o fresco orvalho, verdeja logo a planta. A doença deforma a quem padece; mas logo que a doença faz seu termo, torna, Marília, a ser quem era d'antes o definhado enfermo. (...) |
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